Essas mulheres não existiram.

Para conhecê-las basta ir no imaginário, ou em qualquer café, dobrar qualquer esquina, entrar em qualquer sala, frequentar qualquer bar, ler em qualquer biblioteca, balançar em qualquer barco, esperar em qualquer aeroporto, basta estar em qualquer lugar.

Cada mulher é única, um tesouro peculiar, mas todas estão a bordo do mesmo barco: o barco da vida, que pode ser linda, romântica, ou triste, tediosa, mas é a vida.


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Saudades do peixe

A menina tinha 12 anos e já ficava sozinha em casa. Já não tinha mais o que fazer ou brincar. Televisão era proibida até a hora do jantar. Sua diversão era o gato Sansão. Tinha esse nome em oposição ao seu pelo curto, mas a força era de um heroi. Afinal passar as tardes na companhia de Júlia não era fácil. 

Todo dia uma aventura. Sansão já tomou banho de suco, foi vestido com roupas de bonecas, teve o rabo pintado de verde. Mas a mãe de Júlia nunca percebia essas coisas. O gato era praticamente invisível. Nesse dia em especial Júlia estava entediada. O gato correndo atrás do próprio rabo já não lhe atraía. Eis que ao lado da televisão estava Romário, o peixe. Júlia o achava tão pequeno e fino. Encontrado o alvo do dia. 

Júlia foi lá, olhou, olhou, colocou a mão dentro do aquário, balançou até que num golpe de sorte segurou o peixe. Pegou-o com as duas mãos e segurou-lhe pelo rabo. Ele debando-se e Júlia só olhando. Então Sansão apareceu e seus olhos vidraram em Romário. 

Júlia fez graça e pelo rabo segurou o peixe dentro de sua boca, mas foi só de brincadeira. Ela não iria engolir o peixe vivo. Romário já mexia suas guelras mais rápido. Foi a vez de Júlia provocar Sansão. Fez o mesmo gesto segurando Romário pelo rabo sobre a cabeça de Sansão. O gato resolveu se vingar de todas as armações de Júlia e logo abocanhou Romário. O coitado nada tinha a ver com a história.

Júlia não acreditou no que viu. Depois disso, a garota se comportou como nunca e Sansão se sentia o rei do lar. A mãe de Júlia demorou três dias para sentir falta do peixe e quando olhou para o gato, este correu para o quarto de Júlia, foi quando a mãe se perguntou por onde andava a filha. 

sábado, 7 de outubro de 2017

Lama na trama

O batom borrou um pouco abaixo do lábio inferior, a mão tremia e levava ao contorno errôneo da boca que provavelmente seria beijada.

O convite foi às escondida, às costas da mulher que aparece no retrato de família. Aos olhos dos demais empregados da loja. Ele não tinha medo e à ela faltava vergonha. Chegando a noite preparou-se com perfume, seu mais belo vestido de seda vermelha e renda preta. Um corpete deixava tudo mais justo e mais atraente.

Sob a penumbra do corredor desceu de seu quarto entre os quartos dos demais empregados. Todos já dormiam quando ela pisava descalça as tábuas do século XVIII que rangiam. Ninguém acordou. Ninguém sentiria sua falta. Nas mãos uma bolsa com seus acessórios e os sapatos com salto que lhe deixavam mais formosa.

Chegando à porta, hesitou em abri-la, antes precisava calçar a elegância. Conforme prometido, a carruagem aguardava do lado de fora. Luzes externas apagadas, ninguém percebia a cavalaria que arrastava a velha carroça. Entrou como se entrasse num baile. Sozinha na carruagem se indagou se o que fazia era certo. Não sabia seu destino, mas tinha certeza que não era a casa da família dele.

Vergonha não lhe tingiu o rosto, mas a ansiedade sim. Um homem, casado, rico, com filhos, lhe desejava. Uma mulher não pode ceder a todos desejos na vida, mas difícil é resistir ao charme de um homem que lhe elogia ao pé do ouvido, ainda mais na frente de outras pessoas. Dizer-lhe que a inteligência dela é maior que da esposa, que o corpo é mais formoso que aquela com quem divide o leito, levou Beatrice à carruagem naquela noite.

Não sabia se o caminho era longo, se o trajeto seria discreto. Mas ficou ansiosa ao ver que já se demorava e o cavaleiro não lhe dava notícias do anfitrião. Ao pensar ver a luz de uma estalagem ouviu um estrondo. A carruagem parou abruptamente já caindo na vala da estrada e o cavaleiro gritou por socorro. Pela janela viu o homem ser levado por um cavaleiro na garupa para longe.

Uma outra carruagem parou ao lado da sua. Sua visão limitada viu uma mulher no seu interior lhe cuspir a face com os olhos. Aquele olhar excruciante lhe anunciava não apenas a morte mas também a vergonha.

Sozinha na carruagem cambaleante na beira do penhasco bastava um mal jeito dos cavalos e tudo desabaria morro abaixo. Torceu para que os cavalos não se assustassem com os lobos que uivavam ao longe. Ela já rezava para não ser devorada, mas não podia ficar ali até amanhecer, não havia explicações plausíveis para a situação.

Do olhar ameaçador daquela mulher viu sua dignidade rolar pelo penhasco. Pôs-se a andar pela estrada escura tendo como guia apenas a luz da lua. O medo era menor que a vergonha de ser encontrada morta na carruagem de um homem casado no meio da noite.

Limpou com raiva o batom vermelho dos lábios. Eram lembrança de seu atrevimento. Os sapatos voltaram às mãos para aguentar o longo trajeto de volta. O vestido arrastava a renda na lama, que já chegava a sujar-lhe na altura dos joelhos quando avistou a cidade. O sol já estava prestes a raiar quando notou sua hospedaria. Mas antes de chegar lá, passou pelo crivo dos olhares curiosos dos trabalhadores matutinos.

Padeiros, pedreiros, carregadores lhe lançaram olhares de pena pelas circunstâncias que deixavam claro que as intenções de Beatrice naquela noite não eram de benevolência ao próximo.

Corria para fugir dos olhares, da vergonha e do arrependimento. Desejava nunca ter saído de seu quarto, nunca ter dado ouvidos àqueles elogios eloquentes e aproveitadores. Sonho de mudar de vida, de ser amada lhe pareciam tolos diante do que passara.

Ao chegar à sua estalagem precisava passar ao lado por uma carruagem estacionada, onde a dona do leito do anfitrião lhe aguardava com um leve sorriso no rosto de dentro da minúscula janela. Ambas não dormiram, mas uma delas teve que afundar na lama para chegar ao seu destino. Sua dignidade foi lá deixada.

O anfitrião mal sabia da inteligência de sua esposa e não percebera seu sumiço noturno, tampouco importou-se com a ausência da vendedora que não cumprira a promessa de ir vê-lo naquela noite. Estranhou apenas acordar e não ver sua carruagem no local de costume. Pensou que continuava em frente a estalagem esperando pela coragem da vendedora que sequer sabia se chamar Beatrice.

Viveu sem saber que sua carruagem fora palco naquela noite, mas nunca se separou da mulher, também nunca encontrou outra pretensa amante.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O modelo



Ela só queria que o mês passasse rápido. Suas férias estavam chegando, ela estava de saco cheio do trabalho, do stress, do vizinho com música alta, do cachorro arranhando no andar de cima, da mãe ligando depressiva, do namorado que a perseguia. Ela só precisava descansar num lugar paradisíaco.
Decidiu que não iria se incomodar até chegarem as férias, começou a relaxar e fazer apenas o necessário. No trabalho as tarefas eram cumpridas da maneiras mais fácil. Seu emprego de secretária não exigia grandes habilidades, bastava saber o que o chefe precisava e ser ágil. Depois de um tempo tudo fica no automático. Então ele mandou que ela fizesse algo novo, um convite para uma reunião com alguém importante. Ela já achou que não fosse tão importante assim.
E como estava decidida a fazer tudo do jeito mais rápido e tranquilo, foi direto para a internet. Pesquisou e pegou o primeiro modelo que apareceu. Não sabia se estava no formato certo, com os pronomes de tratamento corretos, mas usou mesmo assim, adaptou às informações do chefe e mandou para o convidado.
Dois dias depois foi chamada na sala do chefe a portas fechadas. Levou um susto quando o chefe disse que o convidado negou o convite para a reunião, já que um convite tão mal feito não poderia ter sido elaborado por uma empresa competente e de reputação ilibada. O chefe disse que conferiu uma cópia do convite e constatou que ela utilizara o "copia e cola" da internet e não se deu nem o trabalho de alterar o pronome de tratamento do feminino para masculino, ou o nome da empresa. Pior: usou o nome de uma empresa concorrente. Isso foi imperdoável.
Consequência: a demissão foi certa. Em vez de férias, agora ela tinha que procurar outro emprego. Não podia esbanjar e viajar. Fazer tudo do jeito mais fácil foi o jeito de ser demitida. Agora ela precisava se reinventar, pois não tinha modelo para vida de desempregada. O jeito era procurar na internet.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Desejo não tem hora

 
Fonte: Freepik
Ela estava feliz mesmo estando no nono mês de gravidez, ainda podia fazer tudo o que quisesse, desde passeios, corridas, academia Podia comer o que quisesse e ainda colocava a culpa na gravidez. Ninguém contestou quando ela pediu três barras de chocolate e dez caixas de morango.
O marido só lhe paparicava, acariciava a barriga, já não deixava mais que ela fizesse qualquer serviço da casa. Então ela só aproveitava. Além de passar os dias comprando mimos para o futuro filho - ou filha, pois decidiram esperar até o parto para ver o sexo da criança - ela também passava o dia vendo filmes e lendo livros, coisas que certamente não faria nos próximos dias.
A rotina da casa com um bebê iria mudar. Em vez de filmes com romance só iria assistir desenhos educativos, em vez de blues, só ouviriam cantigas de ninar. O tempo seria dividido entre as tarefas da casa e os cuidados com a criança. Então era hora de relaxar.
Mas ela queria compensar o marido por toda sua atenção e dedicação, então ela estava preparando um jantar especial para ele. Esse era um dos últimos jantares que não teriam um bebê chorando ao lado. Ela quis fazer algo diferente. Começou pela sobremesa, a favorita dela, um petit gateau. Já aqueceu o forno, derreteu a manteiga, estava picando o chocolate quando, de repente, sentiu uma fisgada, uma sensação estranha e viu o líquido que saía dela como uma cachoeira. A bolsa tinha estourado.
Só teve tempo de desligar o forno para evitar qualquer acidente. Ligou para o marido que veio correndo do trabalho para lhe ajudar a pegar a mala da maternidade e entrar no carro. Mas antes que ele pudesse arrancar em direção ao hospital, ela fez com que ele voltasse para dentro de casa e pegasse um pedaço de chocolate da sobremesa. Desejos de grávida até o último minuto.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

No aeroporto...

 
Imagem Freepik
Mulher, carnaval, viagem: confusão na certa. Ela vive sozinha num apartamento pequeno, tem um bom emprego, mora numa cidade um tanto quanto pacata. Não vê a oportunidade de se encontrar com amigas que conheceu pela internet. Nada melhor do que o feriado de carnaval e muitas festas no Nordeste pra fugir desse marasmo.

Destemida, ela pede para sair do trabalho mais cedo na sexta-feira, corre pra casa, termina de arrumar a mala, pega a bolsa, tranca tudo e pede pro táxi correr. No meio do caminho se recorda que esqueceu a escova de dentes. Isso não é um bom sinal, muito menos em época de carnaval. Mas tudo bem, dos males o menor.

Chegando ao aeroporto, ela corre para verificar a situação do voo. Obviamente a pressa é inimiga da perfeição. Véspera de feriado em aeroporto é igual dia de feira, todo mundo se esbarra. Não deu outra: ela tromba na primeira senhorinha que vê pela frente. Por pouco a velhinha não caiu. Agora para mulher sem sorte não poderia acontecer coisa pior: a mala girou, girou e caiu espatifando-se no chão, abrindo-se toda e deixando à mostra as intimidades da jovem. Não que tivesse que se envergonhar das lingeries sexys que levava na mala, mas não precisava cair tudo na frente de um bando de gente parada na fila sem nada para fazer.

Ok, pensando positivo, dos males o menor, ela segue para o checkin. A mala rasgada foi devidamente lacrada e despachada. Agora é só partir para o embarque. Porém, hoje não é seu dia de sorte, um aviso em alto e bom som diz que o voo dela vai atrasar. Ótimo, sai cedo do trabalho, faz tudo voando, esquece itens essenciais para agora sentar e esperar por sabe-se lá quantas horas. Fazer o quê, aproveitar para ler, afinal romance não tem hora. 

Bom seria se ela tivesse trazido o livro que ficou na mesinha de centro da sala, mais um esquecimento imperdoável. Já que se tem tempo, não se tem livro, a solução é comer. Ela vai ao café que tem a vitrine mais sugestiva, bolos de chocolate com recheio de brigadeiro e morango, tortas de limão, quindins, tudo do melhor e mais gordo. Ela merece, afinal tanta coisa dando errado, um bolinho ajuda a melhorar.

Bolo escolhido, metade já comido na fila, dada à gula dos olhos. Eis que no momento de pagar, ela nota que a carteira não está na bolsa. Ai não! Todo dinheiro que sacou para usar no Nordeste, e ainda tinha o cartão de crédito. Estranho, pois ela pegou a carteira para apresentar o documento no checkin. Ainda bem que na confusão do checkin ela guardou o documento no bolsinho de fora da bolsa e não dentro da carteira.

Mesmo assim o apavoro vem devagar, com a mesma sensação ruim de que foi furtada. O desespero é nítido, as lágrimas vêm aos olhos. Ela tenta argumentar com a mulher do caixa, mas ela é irredutível, é preciso pagar pelo bolo já comido. Morta de vergonha, ela olha para a fila se formando às suas costas. Gentilmente, o próximo cliente se oferece para pagar o bolo, e ainda um café. Tudo pago, ela informa ao gentil rapaz que precisa ir à Delegacia do aeroporto registrar a ocorrência de furto de sua carteira.

O rapaz que também tem seu voo atrasado, se oferece para ir junto. Ela até para de reclamar um pouco da má sorte do dia e pensa que ainda existem pessoas boas no mundo. Os dois se deslocam pelo aeroporto, fazem o registro e depois sentam para tomar o café prometido. Ela ligou para as amigas que garantiram emprestar o dinheiro para curtir a viagem e na volta ela iria transferir a quantia. Ufa, menos mal, não irá perder a viagem, mas o dinheiro sumido lhe dá dores no coração.

No café, conversando com o gentil homem, as horas passaram rápido. Depois de muita conversa, ela já está nos ares, suspirando pelo homem culto, gentil e cavalheiro que acabou de conhecer. Mas tudo tem um fim, é chegada a hora do embarque, ela vai para o Nordeste festar com as amigas, ele vai para o Sul visitar a família. No momento em que ele pede o telefone dela, só faltou dar saltinhos de alegria. Ele disse que se já não tivesse comprado passagens para ver a família iria acompanhá-la no carnaval, pois nunca conhecera mulher tão animada, inteligente e intrigante. 

Os dois já na sala de embarque se despedem, um beijo na bochecha, cada um vai para sua fila de embarque em direção ao avião. Os dois agora só se olham pelo vidro. Ela abana igual a uma louca, pensando que no final tudo deu certo e que romance não tem hora e nem lugar. Pensa que não poderia ter sido melhor, pois se tivesse trazido o livro não teria conhecido o rapaz, pois não teria ido à confeitaria (mal sabe ela que a carteira também não teria sido subtraída). Mas toda alegria dela termina quando ele acena de volta... Acena calmamente... Com a carteira dela na mão e simplesmente entra no avião.

Ela sai correndo tentando voltar, mas é proibido sair depois do embarque. No agito do feriado, ninguém lhe dá atenção. Resta agora embarcar no avião e pensar que o carnaval será melhor do essa tragédia de aeroporto, de ser passada para trás por um gentil ladrão. Ainda assim, ele era bonito, quem sabe ele telefone, ou não. Óbvio que não. Mas talvez ela o perdoasse. Não! Deve existir homem gentil de verdade, sem interesse. Talvez esse homem ideal esteja no carnaval do Nordeste, ou não. Mais provável que não.

Tudo isso só a faz lembrar de sua infância, quando a mãe dava os melhores conselhos: nunca fale com estranhos. Muito menos se eles forem bonitos, gentis, charmosos, solícitos, cultos, inteligentes e estiverem indo justamente pro lado oposto do país.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Borboleta

 
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Nos finais de semana ela gostava de ficar sentada no jardim de sua casa, apenas tomando um chá e apreciando a natureza. Sua vida era assim: trabalhar durante a semana, ficar em casa nos finais de semana, lendo, vendo filme, sentada no jardim, nada muito emocionante para fazer, nenhum namorado para visitar, nenhum parente por perto.

Mas ficar ali, sentada sobre a grama só olhando as flores lhe dava uma paz quase palpável. Um passarinho pousa na árvore, uma lagarta come uma folha, uma borboleta pousa numa flor. Uma vez ela ouviu que uma borboleta batendo as asas aqui pode causar um efeito do outro lado do mundo.

Logo ela pensou no poder e liberdade que uma borboleta tem. Quando se é jovem e livre, alguns riscos valem a pena. Nessa cidade nada lhe prende, nem no trabalho faz questão de continuar, não tem muitos amigos, não se sente importante para a sociedade. Viver é mais que sobreviver. Ela tem um valor em dinheiro guardado, serve para a ideia inicial.

Poucas coisas são realmente suas, pode guardá-las todas num quartinho nos fundos da casa e alugar o seu lar e ainda terá renda extra. O emprego de garçonete vai estar lá quando ela voltar, nem todos aceitam trabalhar por pouca gorjeta. Então ela não tem nada a perder. 

Poucas coisas lhe satisfazem como um bom chá, um bom livro e uma bela viagem. Destino: o outro lado do mundo. Se aqui ela não faz diferença, vai seguir a borboleta, vai causar efeito no outro lado do mundo.

Se for à África pode ser professora de crianças, se for à Espanha pode trabalhar num museu, se for à França pode trabalhar numa confeitaria, se for à Polinésia Francesa, vender pérolas, se for à Argentina vender vinhos. Não há limites para uma mulher versátil, só é preciso escolher o primeiro destino. Na mala itens indispensáveis: um livro, protetor solar, um chapéu, roupa de banho e muita coragem.

Uma jovem que sai pelo mundo em busca de asas pode voltar uma mulher nas nuvens.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Aquela janela



Se o amor não tem idade, ele estava certo em se apaixonar.
Ela morava no prédio ao lado do seu, suas janelas eram frente à frente. Não havia um dia sequer que ele não olhasse para fora e não reparasse na mulher do oitavo andar, da janela da direita, da cortina branca transparente.
Todos os dias ela ficava a olhar o céu enquanto segurava uma xícara de chá. Ela era simplesmente encantadora. Ele fingia olhar para a rua para que seus olhares não se cruzassem, afinal ele era tímido. Mas adorava essa sensação logo pela manhã, de esperar por alguém, ainda que não a conhecesse.
Ela fingia que não reparava no rapaz do outro prédio, passava horas ali, encostada na janela para que ele lhe observasse. O trabalho de escritora permitia que ficasse em casa inventando histórias de amor e talvez até se inspirasse na vida dos vizinhos para escrever alguma trama. Personagens não faltavam. Mas aquele rapaz lhe intrigava, afinal ele era mais novo, mas não tirava os olhos de sua janela.
Ele não recebia visitas, não que ela tivesse visto. Ele não tinha animais, não que ela não gostasse disso. Ele passava pela janela de pijama, de roupa de corrida, de terno, não que ela reparasse. Como escritora ela não parava de pensar no que ele trabalhava, o que gostava de comer, que tipo de mulher lhe atraía, o que gostava de ler, que tipo de música lhe relaxava.
Não que ela estivesse interessada, ela apenas gostava de ser observada, de causar interesse. Porém todos os dias ansiava pela vista da janela. Um dia acordou e foi até a janela e só conseguiu sorrir, quando depois de uns três desse "olha mas não olha", ele, atrevidamente, estava atirando um avião de papel contra sua janela. Ela pensou na sorte de estar bem ali no exato momento, porém, quando olhou para baixo viu o chão repleto de aviõezinhos, eram as tentativas em vão daquele jovem rapaz.
Todavia, bastou um avião cair para dentro da janela dela para entender a relação deles. Era um convite para se encontrarem à noite e não mais pela manhã. Mas cada um na sua janela, cada um com sua comida, cada um com sua vela sobre a mesa, sua roupa de luxo. Se ela gostava de coisas diferentes - e já tinha experimentado muitas na vida, a idade lhe permitiu isso - ela logo aceitou. Rabiscou um sim de batom no avião e lançou-o de volta. Obviamente ela não acertou a janela de primeira... E ele teve que esperar até à noite para saber a resposta dela.
Quando ele estava todo arrumado, próximo à janela, com luz baixa, segurava apenas uma rosa. Ela, no apartamento dela também estava à luz de velas. Ela foi se aproximando da janela, mas por trás da cortina branca transparente. Lentamente se aproximava mais da janela. Contudo, para surpresa dele, em vez de trajar um vestido de noite, ela estava de camisola, não tinha vergonha alguma do que mostrava. Ele sabia que ela tinha mais idade que ele, mas não podia deixar de reparar naquelas curvas, perfeitas, intocáveis, ainda que à distância. Ela era elegante de qualquer maneira, de roupão, de pijama, de roupa, e com qualquer idade.
Ele não teve dúvida, apagou a luz e correu pelas escadas de incêndio de seu prédio. O amor não tem idade, mas não dava mais para perder tempo.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Bastava um clips...




Todos os dias ela arrumava bem os cabelos antes de sair de casa, passava batom, uma corzinha nas bochechas, vestia uma roupa elegante; pegava o ônibus, lia o mesmo jornal, sentava no mesmo banco, descia no mesmo ponto e há onze anos entrava no mesmo prédio. 

Trabalhar num jornal nem sempre é fácil, mas a função dela é mais cômoda, como secretária, ela tinha tempo para estudar, ler notícias, ler romances, qualquer coisa. Dentre todos seus colegas de trabalho ela é a única que não é menosprezada, porque está sempre correndo, atenta aos chamados. Deve ser por isso que ainda permanece no emprego que lhe paga tão mal.

Ou não, pode ser que o motivo de ficar tanto tempo num emprego que não lhe exige muito, não lhe paga muito e também não lhe dá muita felicidade tenha a ver com o carinha que senta na mesa ao lado. Faz cinco anos que ele está ali, faz cinco anos que ela tem torcicolo todos os dias à noite, de tanto ficar olhando de canto de olho para ele, para seus cabelos sedosos, seu maxilar quadrado, seus ombros largos.

Ainda bem que o trabalho não exige tanto dela, senão perderia essa vista. O problema é que o tal carinha não é dos mais extrovertidos, ou seja, o contato visual é pouco, para não dizer nulo. Quando ele precisa conversar com ela, fica sempre olhando para baixo, para um documento, qualquer coisa que evite o contato direto.

Ela já não sabe mais como chamar sua atenção, já veio de saias curtas, blusas transparentes - o que ensejou uma bronca do chefe -, já tentou indiretas, dizendo que tinha ingresso sobrando para jogo de futebol (qual mulher teria??). Porém, o homem é mais fechado que uma pedra e não entende o que ela quer, ou ele tem namorada.

Obviamente ela já reparou que ele não usa aliança, nunca recebe presentes, nem ligações de mulheres (afinal ela sabe disso pois atende o telefone).  Ele sai de vez em quando com o pessoal do trabalho no final do expediente, mas geralmente as mulheres não são convidadas, então ela ainda não teve a oportunidade de realmente conversar com ele fora do trabalho.

O contato se limita aos assuntos de trabalho, mas ela sempre insiste nas pequenas coisas em chamá-lo pelo nome. Hoje, depois de pedir o grampeador emprestado, uma caneta, já que a dela falhou obviamente, agora ela pediu um clips para prender documentos que ela julga importantíssimos. 

Quando ele pega um punhado de clips e tenta lhe alcançar, ela acaba derrubando metade no chão e ambos tentam se abaixar para pegá-los. Claro que, nos espaços pequenos de escritórios de hoje em dia, todo mundo se esbarra e foi o que aconteceu, ela bateu com a cabeça no ombro dele. Ela já morrendo de vergonha, achando que ele ficaria fulo da vida, olhou com aquela cara de tristeza já pedindo desculpas, quando ele levantou lentamente a cabeça, olhando no fundo de seus olhos, depois de sentir aquele perfume que nunca tinha percebido e viu que precisava mais do que nunca sair com aquela mulher. Ele a convidou para sair na mesma noite.

Se ela soubesse que um clips teria bastado para atrair a atenção dele, ela não teria gastado tanto dinheiro em batons, roupas, sapatos, ingressos...

terça-feira, 12 de julho de 2016

Era uma vez um casamento...




Quando se está casado há quarenta anos, qualquer conversa se transforma em discussão. Pode ser até que a pessoa concorde com a outra, mas para não dar o braço a torcer e manter a postura de durona, sempre a contraria.

Se o homem larga o chinelo na entrada da porta para agradar a mulher e não sujar a casa ela reclama que ele não guardou no lugar certo, quando o homem coloca o copo na pia para não deixar na mesa, ela reclama que ele não lavou. Quando ele vai ao mercado e compra a margarina com sal, ela reclama que deveria ser sem sal, pois faz menos mal à saúde. 

Coitado do homem que na própria casa é tratado igual ao cachorro, para não dizer pior. Porque não ter liberdade onde mora é viver acorrentado, pior, acorrentado a uma mulher que não lhe dá um mínimo de espaço, de discricionariedade, ele não pode sequer escolher a marca de cerveja que bebe. 

A mulher só anda com o avental que ganhou de bodas de prata, circula de bobes no cabelo porque não tem vergonha do marido (ou dos vizinhos), não usa mais maquiagem porque acha que incomoda. E ainda espera que o marido lhe veja com olhos de desejo. Eles já nem se olham, só se for atravessado.

Ele não vive, sobrevive, ela não conversa, espezinha. E assim vão se passando os dias. A gota d'água foi quando ela já não aguentava mais o marido comprando os produtos errados na feira e mandou que ele comesse toda a linguiça de uma só vez e que comprasse outra, da marca certa, para ela. Ele, já não aguentando mais a situação disse que só cachorro era tratado assim. Ela não pensou duas vezes: jogou a linguiça pro cachorro no quintal e mandou que o marido fosse lá fora comer e dormir! Eis o fim de um casamento.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O trem da vida




Ele passa veloz, geralmente não pára. Nesse horário ninguém quer subir nem descer, é tarde, é madrugada. A estação está vazia. Dá medo só de ver os vagões raspando na coluna. 

Mas uma mulher sempre fica à espreita. Não se sabe se tem família, se tem casa, se tem marido. Sempre ali, taciturna, escondida sob seu xale, parada, olhando quem passa, quem sobe e quem desce.

Alguns têm medo, outros dão esmola, pensando se tratar de uma mendiga. Há quem diga que é louca, outros, que é alcoolista. Porém nunca a vi com uma garrafa na mão ou conversando sozinha. Pelo contrário, já a vi lendo um livro acompanhada de um copo de café. 

Pergunto-me se espera por alguém, se pensa que pode passar a vida ali, só olhando quem passa, se isso basta para que seja feliz. Mas ninguém fica parado, todos buscam algum objetivo, ninguém fica só esperando.

Até que um dia, ao esperar a chegada do último trem, vi aquela mulher tombar ao chão, sem mais nem menos. Corri para ajudar enquanto outros se afastam de medo. Ela só teve tempo de colocar a mão no bolso do casaco e me entregar uma foto, pequena, em preto e branco, de uma criança, um menino com os traços dessa mulher. No verso os dizeres: “À minha querida mãe, que tanto amo, um dia voltarei”. 

O trem da meia-noite nunca parou, a mulher nunca voltou a ver seu filho. A criança, agora provavelmente já adulta, talvez não saiba que sua mãe sempre buscou a felicidade, mas a felicidade nunca a encontrou ali, sentada na estação de trem, porque o trem da meia-noite nunca parou, ele nunca desceu e ele nunca voltou.


(Por Marina H. U. de Souza - escrito em 29/1/2015)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O sapato

fonte: freepik
Ele saiu de barco pela manhã, cedinho. Sem olhar para trás foi em direção ao horizonte em busca de paz, de liberdade, de peixes. Na calmaria do mar, desligou o motor e ouviu o zumbido das ondas ao longe. Preparado para lançar as redes, assustou-se quando avistou a sujeira da água ao meu redor.

Sem compreender o que estava acontecendo, deixou a rede escapar boquiaberto e, ao puxá-la, em vez de um peixe, um objeto estranho estava entranhado: um sapato. Não era um sapato de homem, nem chinelo, nem algo velho ou rasgado. Mas se tratava de um sapato de mulher, de salto, com aparência chique, pouco desgastado.

No silêncio do mar se pegou pensando de quem seria aquele sapato. Seria de uma mulher que pulou ondas na virada do ano? Não seria uma garota que bebeu além da conta e pulou de um barco para nadar à luz do luar? Ou seria de uma jovem num navio de cruzeiro que se sentiu sozinha e decidiu deixar ao mar decidir seu destino. Uma mulher de meia idade empurrada do luxuoso barco por um jovem namorado estelionatário?

Não descobriu a verdade até ver aquele pé aparecer, o pé que supostamente se encaixava perfeitamente no sapato de veludo. Junto com ele viu um corpo e um rosto, uma mulher, com um olho roxo, com arranhões nos braços e manchas pelo pescoço. Apavorado, assustado com aquela imagem triste e pálida, pensou numa mulher que ao ser extremamente abatida pela vida e pelo marido, foi largada ao mar como forma de esconder os vestígios de um crime, de uma obsessão, de um casamento fracassado, um suposto amor forte demais que transgrediu todas as regras do amor verdadeiro.

Vendo aquele corpo não pôde conter as lágrimas e se perguntar que tipo de sapato aquele homem calçava para ter coragem de chutar a esposa de um barco. Um homem que não se mostra digno sequer de ter uma esposa, um barco ou um sapato rasgado.

(Apesar de parecer a história de um homem, a protagonista é a mulher, que sofre, que vive, que morre)

Escrito por Marina H. U. de Souza - em  25/1/2015

terça-feira, 21 de junho de 2016

Um balanço sob as estrelas...



Ela sempre foi motivo de chacota, sempre ouviu das tias que isso não existe, e das amigas escutava que era uma antiquada, dos irmãos que ela iria ficar para titia. Mas ela não desistia.

Todos os dias, no início da noite, ela saía pela porta dos fundos da casa e se dirigia às árvores no quintal. Como sempre seu balanço a esperava. Ali ela permanecia sentada por alguns minutos apenas encarando o céu, admirando as estrelas e esperando, só esperando, aquela estrela especial, a estrela cadente, para que pudesse fazer seu pedido.

Uma vez, quando criança, o pai lhe disse que se uma estrela cadente cruzasse o céu e ela fizesse um pedido, ele seria atendido. Desde então, nesses longos doze anos que se passaram ela se senta ao balanço todas as noites para fazer o mesmo desejo: um amor para toda a vida. 

Apesar de ser constantemente alvo de críticas por seu comportamento, não desiste. Agora com dezessete anos ela tem certeza que se o amor verdadeiro existe, as estrelas apenas vão confirmar isso.

O problema é que ela só olha para o céu, para as estrelas, sendo incapaz de olhar para o lado, para o quintal do vizinho, onde todas as noites, um jovem se senta ao banco de carvalho no início da noite para ler. Pode ser que as estrelas já tenham tornado o pedido realidade, mas ela precisa aprender a ver ao seu redor. 

Ele se senta todos os dias no fundo no quintal no banco de carvalho esculpido pelo próprio pai. Ele não espera que ela lhe dirija um sorriso, mas a esperança é de que um dia ela possa notá-lo ali, quase ao seu lado, fazendo-lhe companhia sob as estrelas. 

O pai sempre pergunta porque ele sempre lê o mesmo livro quando se dirige ao banco de carvalho, e o rapaz sempre tem a mesma resposta, que é seu livro favorito. Porém, ele não pode contar a verdade, que sequer conseguiu terminar a história, porque o livro é apenas a desculpa, o disfarce para permanecer ali, no quintal, admirando os cabelos dela brilhando à luz do luar e seus olhos que quase sorriem só de olhar as estrelas. 

Ele sabe que um dia ela vai reparar, vai lhe lançar um olhar, vai lhe convidar para que juntos possam apreciar o céu, mas enquanto isso não acontece, ele vai ler e reler o mesmo livro todas as noites e ela vai chamar e clamar pela estrela cadente que talvez já tenha passado despercebida pelo céu num piscar de olhos.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Tudo culpa da tecnologia...

 
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Ela tinha dois vícios: trabalho e mexer no celular. Trabalho não tem jeito, ou trabalha dia e noite ou é mandada embora. E o celular, ela diz que tanta tecnologia não pode ser desperdiçada, ajuda a otimizar as tarefas, o tempo. Mas também acaba com o relacionamento entre as pessoas.

Pois a falta de tempo e coragem fez com que ela se inscrevesse num site de relacionamentos. Depois de muito procurar achou alguém cujo perfil era atraente, não parecia louco, trabalhava e tinha um porte físico parecido com o dela - não gostava de baixinhos, sem preconceito. Depois de algumas conversas pela internet durante a madrugada resolveram marcar um encontro.

Mas tinha um problema, ou solução. O site não permitia fotos, apenas as características das pessoas eram descritas. Então o mistério fazia parte do primeiro encontro. Eles combinaram de se encontrar numa cafeteria badalada perto do trabalho dela. Ela escolheu um lugar de grande movimentação, pois não queria correr o risco de se encontrar com algum possível maníaco num lugar muito privado.

Ela sairia mais cedo naquele dia para encontrá-lo. Combinaram que ele estaria de blusa polo vermelha e ela usaria brincos de coração. Chegada a hora do encontro ela ainda não tinha finalizado um trabalho importante e na vida de advocacia um prazo perdido pode ser morte de alguém, ou da advogada. A assistente dela estava mais empolgada do que ela para o tal encontro e disse que era melhor se apressar para não perder a hora e o pretendente. Alegou que tudo poderia ser resolvido pela internet.

Viu como a tecnologia sempre ajuda. Ela correu para o café e sentou-se numa mesa com sofazinho mais escondido, queria poder ter visão de todo o local e notar quando o cara entrasse. Só olhava os que estavam de camisa vermelha, realmente ele não poderia achar cor mais chamativa. Aí lembrou-se do prazo e pegou o celular da bolsa tentando resolver na pequena tela o grande problema do dia. Demorou mais que o previsto. Ela não notou que passou meia hora do combinado e o cara não apareceu. Na verdade ela não tinha conseguido olhar o tempo todo a porta, porque precisava terminar o trabalho, então ficou de cabeça baixa.

Quando levantou-se ficou indignada de não encontrar o cara por ali esperando por ela e entristeceu-se por pensar que ele poderia tê-la visto, identificado os brincos e fugido por não ter gostado de sua aparência. Na verdade ela ficou irada com essa possibilidade. Chegando em casa, correu para internet e foi tirar satisfação com o falso pretendente. Ele disse que foi ao local marcado, chegou pontualmente na cafeteria. Contou que olhou para todas as moças que estavam no café procurando pelos brincos. Ainda ficou ali por quinze minutos esperando alguém com tal característica entrar, mas não viu, desistiu e foi embora.

Foi então que ela repassou toda a cena. Ele deve ter entrado no café enquanto ela estava de cabeça baixa terminando o trabalho em seu celular, assim não foi possível que ele visse seus brincos. Ele não deve ter ido falar com ela porque pensou que sua pretendente estaria por lá exibindo os tais brincos de coração e esbaforida de cabeça arrebitada procurando por ele. Depois disso ela viu que teria que largar um dos dois vícios, porque estava literalmente perdendo a chance de conhecer pessoas, talvez até o amor da sua vida, por ficar de cabeça baixa no celular.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Fila de supermercado




Quando estou em fila de supermercado me sinto a pessoa mais feliz do mundo, ou a mais trágica. Costumo olhar para as pessoas e imaginar suas histórias e vidas. A comparação é inevitável. Eu, solteira, observo aquela mãe com um carrinho lotado, um filho na cadeirinha, outro puxando seu vestido, ela berrando mandando se aquietarem. No carrinho dela só leite, iogurte, comidas para crianças, sucos, nada de álcool, nada de saboroso, nada para pessoas adultas. Nessas horas dou graças a Deus por ainda não ser mãe, mas no fundo sinto uma mínima inveja. Mas assim como esse sentimento vem rápido, também vai embora voando.

No carrinho da frente uma senhora, talvez já seja idosa, mas não quer se sentir com tal idade, usa a fila normal em vez da preferencial. Por isso, ela aguarda com uma cara emburrada na fila. Em seu carrinho comida de gato, uma cidra, uma orquídea, pão integral, granola e uma revista de horóscopo. Presumo que ela nunca tenha se casado, mora com gatos, se dá ao luxo de beber uma cidra nas sextas enquanto aprecia sua coleção de orquídea e lê o horóscopo que diz se ela vai ou não encontrar o amor da sua vida no supermercado, na padaria, na vizinhança, porque apesar da idade ela ainda acredita no amor.

Já o rapaz em frente a ela se mostra totalmente fora do mundo. Entretido em seu telefone celular, sequer notou a idosa logo atrás na fila e não se importou em ceder-lhe o lugar. Suas compras se resumiam a garrafas de cerveja, salgadinhos fritos e camisinhas. A noite de sexta dele estava garantida. Ainda na juventude não tem muito com o que se preocupar, ou tem.

Em outra fila notei um casal de meia idade, sem filhos por perto. Ele de terno e gravata, só olhava para frente, não falou com ela uma palavra durante os quinze minutos na fila. Ela, por sua vez, vestida de uniforme branco, fingia ler uma revista, mas que sequer virou a primeira página. Pela feição dos dois, a vida conjugal não ia bem. No carrinho, apenas o básico, pães, frutas, latícinios, papel higiênico, produtos de limpeza. Nada que transpareça que o casal irá ter uma noite agradável em casa, tampouco fora de casa, se depender do humor deles.

Também vejo na fila preferencial um casal bem idoso, onde ele é apoiado por uma bengala e ela empurra com vagar o carrinho de supermercado. Engraçado que um casal de idosos poderia fazer compras em qualquer horário do dia, já que geralmente não possuem muitas atividades diárias, mas escolheram a sexta à noite para tanto. No carrinho deles notei as compras normais, mas também um maço de flores, duas garrafas de vinho, chocolates. Fiquei surpresa pelas curiosas compras.

O barulho da senha me acorda desse lapso imaginativo, minha vez de passar no caixa. Passo minhas frutas, chocolates, sorvete quase derretido, refrigerantes, leite, bebidas alcoólicas, ração de peixe e de cachorro, pães, iogurtes, salgadinhos, sucos, produtos de limpeza e uma flor de plástico para a entrada da casa. Quando paguei a conta é que reparei que possuo um pouquinho de cada uma daquelas pessoas, nossas compras se igualam em alguns itens, mostrando que todos vivemos experiências semelhantes, mas cada um com sua particularidade.

Ao sair do mercado, passando pela praça de alimentação e convivência, antes de chegar ao carro, notei o casal de velhinhos sentados confortavelmente comendo pizza numa mesa. Acompanhados do belo vinho que haviam acabado de comprar, ao lado estava o maço de flores, que certamente ele dera à esposa. O chocolate estava ali sobre a mesa, pronto para ser devorado como sobremesa. Aquele casal ainda me deu esperanças, que uma noite de sexta-feira no supermercado pode dar esperanças, mesmo onde toda a rotina se mostra cansativa, entediante, vazia e depressiva.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Eu queria ser uma mosca (mas não morta)

 
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Queria ser uma mosca (mas não mosca morta) para entrar no escritório do meu marido sem ser notada, na verdade não sei, talvez uma abelha, porque mosca é um bicho que tenho um pouco de nojo. Queria ser uma águia pra sobrevoar a cidade quando ele diz que vai correr à noite pela cidade só para espairecer. Queria ser uma loba quando a secretária dele me encara com aquela cara de santa e eu quero fuzilá-la com os olhos. Só queria ser a leoa do meu lar, mas estou mais para a ratinha que se esconde no fundo da cozinha.

Tenho dez empregos, ninguém acredita, mas trabalho na biblioteca municipal no período vespertino, sou voluntária no abrigo pela manhã, ainda sirvo de motorista dos filhos, lavo roupa, faço faxina na casa, cozinho todas as noites, passo roupa, coisas desse tipo.

Óbvio que meu tempo fica escasso, às vezes até para o marido, mas ele não entende que isso é uma fase passageira, sim eu digo para ele que tudo isso vai passar quando as crianças crescerem, não vai demorar tanto, eles já estão com quatro, sete e nove anos de idade #sóquenãovaipassar. Logo logo eles serão mais independentes e ajudarão em casa e nós poderemos ter mais tempo como casal (ahhh tá).

Então enquanto eu administro a casa e faço todas essas tarefas, ele se enfia no escritório, diz que precisa trabalhar até mais tarde, que está estressado com o trabalho e precisa correr. Nunca digo nada, afinal, ele já era workholic quando casamos. Desconfio que a secretária dele, que é loira, mede 1,80m, usa sutiã tamanho 46, veste saias padrão não ortodoxo, saltos agulha iniquilibráveis e pisca com cílios postiços, não precisaria fazer horas extras às segundas, terças, quartas e quintas. Afinal uma secretária é tão imprescindível às nove horas da noite?

A vida é assim, cheia de surpresas e desconfianças. Hoje estou me sentindo um coala, com necessidade de ficar grudada em alguém, queria que fosse meu marido, mas supostamente, digo, certamente, ele está trabalhando até mais tarde. Como não consigo me transformar numa mosca, contratei um detetive. Cansei de suspeitar e viver nessa incerteza.

Se eu me dou de corpo e alma para a criação dos filhos e da família, ele também deveria estar fazendo o mesmo, e não analisando as unhas bem feitas da secretária girafa. Pois o detetive não só me traz as piores notícias, como também envia as fotos para o meu celular como prova. Maldita tecnologia, fiquei sabendo tudo na mesma hora, enquanto tudo acontecia. Nas fotos não consegui ver o tamanho da saia da girafa, porque ela estava sem saia. Ok, uma foto foi suficiente.

Parti para o escritório dele como faz um rinoceronte pronto a atacar, quando fica alisando o chão com a pata, para frente e para trás, pronto para iniciar a corrida e partir contra o adversário, atacá-lo com o chifre jogando-o longe. Realmente o papel do rinoceronte me cai bem, pois o chifre já tenho, na verdade eu poderia ser até um alce com esse par de galhos, se é que não foram muitos mais.

O trânsito foi amigo do meu querido marido e fiquei trancada na fila chegando ao escritório dele apenas uma hora depois, quando supostamente ele já estava correndo pela cidade. Já não sei mais o que é verdade ou não. Perdi toda a coragem de jogar tudo na cara dele e enfrentar a girafa. Volto pra casa abatida como um panda, com olheiras de espantar qualquer um, de tanto chorar.

Só me cabe agora esperá-lo chegar em casa. Vou me arrumar para ficar igual a girafa, super atraente, mas vou enfrentá-lo como uma lince, territorialista, que impõe limites, fazendo marcações com as garras, principalmente no rosto dele. Ele que me aguarde. Miau.